Quando o cansaço não passa: esgotamento mental pode ser confundido com exaustão física

Irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono e falta de disposição estão entre os sinais que merecem atenção

(Foto: IA Ilustrativa/Correio Goiano)

Sentir-se cansado após um dia intenso de trabalho, uma noite mal dormida ou um período de esforço físico é uma reação comum do organismo. Em geral, o corpo recupera a disposição depois de descanso e sono adequados. Quando a exaustão permanece por dias ou semanas, porém, e começa a afetar o trabalho, os estudos, os relacionamentos e as tarefas cotidianas, o problema não deve ser ignorado.

A sensação de “mente cansada” pode vir acompanhada de dificuldade de concentração, lapsos de memória, irritabilidade, desânimo, alterações no sono e no apetite, perda de motivação e sensação de incapacidade. Em algumas pessoas, o sofrimento emocional também se manifesta no corpo por meio de dores de cabeça, tensão muscular, desconfortos gastrointestinais, palpitações e exaustão persistente.

Embora seja usada com frequência, a expressão “esgotamento mental” é ampla e não corresponde, por si só, a um diagnóstico específico. Os sinais podem estar relacionados a estresse prolongado, ansiedade, depressão, burnout ou outros problemas. Também podem decorrer de condições físicas, como anemia, alterações hormonais e distúrbios do sono. Por essa razão, tentar identificar a causa apenas pela percepção dos sintomas pode levar a conclusões equivocadas.

Em declaração publicada no início deste ano, a psicóloga Marina Xavier explicou que o descanso é um dos elementos que ajudam a perceber a diferença entre o cansaço passageiro e um problema que precisa ser investigado.

“O cansaço costuma melhorar com descanso e pausas. Já quando ele se mantém por dias ou semanas, mesmo após dormir, e vem acompanhado de desânimo, irritabilidade, dificuldade de concentração ou alterações no sono e no apetite, pode indicar adoecimento físico ou emocional”, afirmou a profissional.

Diferença entre cansaço físico e esgotamento mental

O cansaço físico costuma surgir depois de esforço corporal e pode ser percebido como falta de energia, peso no corpo, fraqueza ou dores musculares. Em condições normais, tende a diminuir após uma pausa, uma noite de sono ou a redução temporária das atividades.

Na sobrecarga mental e emocional, a pessoa pode até permanecer fisicamente parada, mas sente dificuldade para organizar pensamentos, tomar decisões, prestar atenção ou lidar com situações que antes faziam parte da rotina. Também pode ocorrer a sensação de que o cérebro não “desliga”, inclusive durante os períodos destinados ao descanso.

A separação entre corpo e mente, entretanto, nem sempre é clara. O sofrimento emocional pode produzir manifestações físicas, enquanto doenças orgânicas podem causar desânimo, alterações cognitivas e falta de disposição. A duração dos sintomas, a ausência de melhora após o repouso e o impacto na vida cotidiana são sinais de que uma avaliação profissional é necessária.

Nem todo esgotamento é burnout

Um erro frequente é chamar qualquer cansaço intenso de burnout. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o burnout é um fenômeno especificamente ocupacional, resultante de estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente. A classificação não deve ser aplicada a experiências de esgotamento em outras áreas da vida.

A OMS caracteriza o burnout por três dimensões: sensação de exaustão ou perda de energia; distanciamento mental do trabalho, com negatividade ou cinismo; e redução da eficácia profissional.

Essa distinção foi reforçada pelo psiquiatra Rodrigo Bressan, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante o programa CNN Sinais Vitais, apresentado pelo médico Roberto Kalil e exibido em março deste ano.

“O burnout não é uma doença na classificação internacional das doenças. Ele é um fator de risco para você ter uma doença”, declarou Bressan.

No mesmo programa, o psiquiatra Gustavo Estanislau, do Instituto Ame Sua Mente, explicou que o estresse cotidiano pode provocar sintomas transitórios, enquanto o burnout envolve intensidade, continuidade e prejuízos mais significativos. Segundo ele, a relação com o trabalho é uma diferença importante em comparação com a depressão.

“Geralmente a depressão vai aparecer em uma série de contextos diferentes do trabalho. No burnout, é bastante comum que quando a pessoa se afasta do trabalho, ela sinta um certo alívio”, afirmou Estanislau.

Isso não significa que os quadros sejam totalmente separados. Burnout, ansiedade e depressão podem coexistir e apresentar sintomas semelhantes. A avaliação deve considerar em quais contextos as alterações aparecem, há quanto tempo persistem e quanto comprometem a vida da pessoa.

Sinais podem surgir gradualmente

O esgotamento nem sempre começa de forma intensa. É possível que os primeiros sinais sejam atribuídos à correria, à falta de sono ou a uma fase difícil. Com o tempo, porém, podem aparecer mudanças de comportamento, impaciência incomum, perda de interesse pelas atividades, isolamento, redução do rendimento e dificuldade para realizar tarefas simples.

Entre os fatores que favorecem a sobrecarga estão jornadas prolongadas, pressão permanente por resultados, metas difíceis, falta de autonomia e reconhecimento, conflitos no ambiente profissional e dificuldade de estabelecer limites entre trabalho e vida pessoal. Responsabilidades familiares, insegurança financeira, ausência de rede de apoio e exposição contínua a informações e notificações também podem aumentar o desgaste.

No caso do burnout, a prevenção não depende somente de mudanças individuais. A organização do trabalho, a distribuição das tarefas, o respeito aos períodos de descanso e a existência de um ambiente seguro e saudável também exercem papel importante.

Descanso ajuda, mas não substitui tratamento

Dormir adequadamente, manter períodos reais de descanso, praticar atividades físicas, preservar momentos de lazer, organizar prioridades e estabelecer limites para o trabalho e o uso de dispositivos eletrônicos são medidas que podem favorecer a saúde mental. Essas atitudes, no entanto, não devem ser apresentadas como solução isolada quando os sintomas são persistentes ou incapacitantes.

De acordo com o Ministério da Saúde, o diagnóstico do burnout deve ser realizado por profissional especializado após avaliação clínica. O tratamento pode envolver psicoterapia, mudanças nas condições e nos hábitos de vida e, quando indicado por médico, uso de medicamentos. Consulte as orientações do Ministério da Saúde.

A procura por atendimento é recomendada quando o cansaço dura semanas, não melhora mesmo após o repouso ou interfere no trabalho, nos estudos, nas relações pessoais e no autocuidado. Também merecem atenção tristeza persistente, ansiedade intensa, isolamento, alterações importantes no sono ou no apetite e sensação de esgotamento total.

O atendimento pode começar em uma Unidade Básica de Saúde. Conforme a necessidade, o paciente poderá ser encaminhado a outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Da Redação do Correio Goiano

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