Endividamento das famílias reduz consumo e afeta pequenos negócios

Com renda comprometida, consumidores priorizam despesas essenciais, diminuem gastos e forçam empreendedores a rever estratégias

(Foto: IA Ilustrativa/Correio Goiano)

O alto nível de endividamento das famílias brasileiras tem provocado mudanças no comportamento de consumo e impactado diretamente o desempenho dos pequenos negócios. Dados do Banco Central apontam que 65% das famílias estão superendividadas, chegando ao número de cerca de 130 milhões de brasileiros que afirmam não conseguir honrar seus compromissos devido à renda comprometida.

Esse cenário tem levado à retração do consumo, especialmente em setores considerados não essenciais. De acordo com George Gustavo Toledo, gestor do Programa Conexão Financeira do Sebrae Goiás, a mudança no perfil do consumidor é evidente. “A família endividada sai do consumo por desejo e entra no consumo por prioridade. Isso se traduz em vendas mais lentas, tíquete médio menor e maior busca por promoções”, explica.

O avanço do crédito sem garantia nos últimos anos contribui para esse cenário. O número de brasileiros com empréstimo pessoal mais que triplicou desde 2020, alcançando 41,7 milhões. Já os consumidores com dívidas no cartão de crédito chegaram a cerca de 53 milhões em 2024. Quando associado à falta de educação financeira e à oferta de crédito nem sempre adequada ao perfil do cliente, o problema se torna estrutural e passa a afetar diretamente a dinâmica da economia.

Entre os segmentos mais impactados estão moda, calçados, beleza, bares, restaurantes, lazer, turismo e eletrodomésticos. Nesses casos, o reflexo aparece na redução do volume de compras e na mudança de comportamento do cliente, que passa a adquirir apenas o essencial ou itens em promoção. Em uma loja de roupas, por exemplo, o consumidor deixa de levar um conjunto completo e opta por uma única peça.

Por outro lado, negócios voltados à manutenção, reparo e conveniência tendem a sofrer menos com a retração e, em alguns casos, até ampliar a demanda. A explicação está na priorização de gastos que prolonguem o uso de bens ou resolvam necessidades imediatas.

Diante desse cenário, especialistas apontam a necessidade de adaptação por parte dos pequenos empreendedores. Ajustar o mix de produtos, criar opções mais acessíveis, estruturar melhor o fluxo de caixa e negociar com fornecedores são algumas das medidas recomendadas para manter a competitividade sem comprometer a margem.

Outro ponto crítico é a organização financeira. O Banco Central observa que muitos microempreendedores individuais ainda utilizam contas pessoais para movimentar o negócio, o que dificulta o controle das finanças. “Isso reduz a visibilidade financeira e pode virar barreira ao crédito”, destaca George Gustavo.

Entre os erros mais comuns estão a mistura entre finanças pessoais e empresariais, a compra de estoque sem planejamento, a redução de preços sem conhecer os custos e o uso de crédito caro para cobrir déficits recorrentes. Em períodos de retração, esses fatores aumentam o risco, especialmente quando o empresário confunde faturamento com dinheiro disponível em caixa.

Para lidar com consumidores mais cautelosos, a orientação é alinhar a oferta à realidade financeira do cliente. “Em vez de pressionar para vender mais, o pequeno negócio precisa oferecer uma solução compatível com a realidade daquele consumidor”, afirma o gestor. Ele cita como exemplo academias de bairro, que podem reter clientes ao oferecer planos mais básicos e acessíveis.

Nesse contexto, o Programa Conexão Financeira, do Sebrae Goiás, atua para fortalecer a gestão dos pequenos negócios. A iniciativa é baseada em três pilares: educação e consultoria financeira, articulação institucional para ampliar o acesso a soluções financeiras e orientação ao crédito com apoio de garantias via FAMPE. A proposta é preparar as empresas para tomar decisões mais seguras, melhorar a relação com o sistema financeiro e acessar crédito de forma estratégica.

Para George Gustavo, o cenário atual exige reposicionamento. “A oportunidade não está no improviso, mas no reposicionamento. Ganham espaço os negócios que ajudam o cliente a economizar, reparar, manter ou resolver algo com rapidez”, avalia.

 

Editado por Jotta Oliveira – do Correio Goiano, com informações da Agência Sebrae

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